11.12.11

Pinturas murais nos claustros henriquinos do Convento de Tomar …o que resta ?!



 Nos anos 20 do Quatrocentos, o infante D. Henrique sendo nomeado 8º mestre da Ordem de Cristo, veio residir para o castelo de Tomar. Aqui o navegador começou a congeminar o seu plano das Descobertas e conquistas através do mar Oceano –pela fé e comércio - e olhando o contorno das muralhas templarias soube o caminho a seguir. Subliminarmente elas transmitiam-lhe o mesmo que a nós de um certo ângulo de visão: um autêntico portulano da costa africana...

Cognominado o Navegador, porém Henrique não navegou muito (para além da conquista de Ceuta, onde fora armado cavaleiro antes de entrar para a Ordem)... pelo contrario fez navegar bastante a seus escudeiros e criados de sua casa de Tomar (oficiais moradores na Almedina) : alguns futuros capitães das ilhas eram vizinhos (moradores) de Tomar e aqui no concelho deixaram imortalizado o sonho Henriquino de encontrar o famoso Preste Joam..(o reino cristão-copta da Abissinia,hoje Etiopia)....pois aqui existe como memória disso uma povoação com o nome de Jamprestes ! ...

Os paços do Infante assim como os primeiros 2 claustros góticos do convento -o claustro do Cemiterio e o claustro do Lavor ou lavagem (claustro multifuncional ) a oriente da Charola- foram construídos durante a década de 20/30 sob a direção do mestre Fernam Gonçalves, com seus artífices, que foram de seguida (em meados dos anos 30) fazer na vila de baixo os Estaus ( como mostram as mesmas siglas dos seus pedreiros) com suas arcadas para abrigo dos mercadores que vinham à feira franca criada em Tomar , por carta de 1434.

Na muralha antiga que dá para o terreiro a sul , abriram-se na época do Infante - a nivel térreo do 2º claustro- duas janelas de arco abatido e de paredes enviesadas - onde ainda hoje são visíveis restos de pintura a fresco - uma estrutura reticular com linhas verticais e horizontais de varios tons acastanhados ,formando quadriculas. em cujos extremos existem circulos com alternadamente rosas e cruzes. E dentro também alternamente estruturas(?) arqueadas a verde e bolbos ou corolas esbranquiçados…quiçá evocando as flores do monte funchalense ...cuja floresta de laurissilva terá impressionado os descobridores henriquinos e tomarenses... conforme imagem :
                                 


Uma pintura provávelmente do tempo em que frei Antão Glz (antigo escrivão de puridade do Infante) , alcaide mor do castelo de Tomar e Dom Frey Fernando prior da vila de Tomar e da Ilhas ... usando dos bens deixados em seu testamento, se preocupam com o embelezamento e conservação de seu convento , à semelhança do que referem na época as Constituições de Braga (1477) ao relatar o “desamparo em que som postas quase todallas egrejas e mosteyros”… motivação que se estende também a claustros e refeitorios como em Guimarães (colegiada de N.S.Oliveira e S.Francisco) cf. Paula Virginia de Azevedo Bessa -in “Pintura mural do fim da idade media”, 2004.

Com motivos decorativos geometrizantes e florais caracteristicos da época, ocorrendo em varios suportes : madeira ,pedra e pergaminho (vide por exemplo as rosas brancas do Missal rico manuelino de Stª Cruz) em barras de enquadramento com recurso a estampilhas de época, assim como grilhagens ao gosto italianizante com padrão de cariz floral aplicado – vide figura …
                     
Aqui ocorrendo semelhantes temas decorativos noutros suportes e locais , como os capiteis vegetalistas no 1º piso do claustro ou as colunas pintadas do octógono central da Charola (geometrismo) .

Num dos circulos assinalados- que ampliamos- são visiveis na sua parte debaixo à dextra – as letras D P que podem eventualmente significar uma assinatura abreviada de Diogo Pires - (artista coevo da Virgem do leite de Stª Maria de Tomar) com obra gótica conhecida no ultimo quartel deste século ...pois há mestres que assinam por abreviatura , segundo Luis Afonso, em finais do Quatrocentos nortenho.


São também visíveis, fragmentos de pintura figurativa sobreposta (noutro alinhamento) com linhas quebradas e um grande circulo , onde se encontra, à borda sul da parede , uma personagem com uma vara na mão, misturada/oculta com manchas de reboco …oferecendo dificuldade de interpretação. Também a oriente , do outro lado da mesma janela ,em posição mais ou menos especular, é(ra) visivel a figura de um soldado/ milites vigilante…

Porque substituir pinturas envelhecidas era pratica comum .. pois ao fim de cada geração as pinturas murais estavam necessitadas de repintura . Assim no sec XVI as paredes eram caiadas (borradas) retocadas (como S.Cristovam da Charola) ou tapadas com quadros pintados . Nas visitações manuelinas recomenda-se “ que façam exame das pinturas e se as acharem mal ou envelhecidas as borrem (campanha da cal,cobrindo pinturas mais antigas) e pintem outras … Na segunda metade do seculo : em 1573 há noticia de que o pintor Fernan Rodrigues efectuou obras nos retabulos do claustro do Cemiterio e em 1592- houve obras na “crasta do lavor” que caira a parte de cima...sendo feito contrato com Manuel Francisco , para que caiasse as paredes da crasta e arranjasse os telhados ...

                     
Já no Oitocentos e depois da desamortização dos conventos (1866) foram enviados sob autorização ministerial “ fragmentos (sic) do claustro da lavagem” … para o museu do Carmo em Lisboa ! Finalmente nos anos 40/60 do século passado há noticia de que se rebocaram as paredes (1ºpiso) do claustro da Lavagem…
E agora que vão fazer com o que resta das pinturas ?… adjudicada obra a uma empresa de restauro e caído o pano (cobertas) sobre as janelas do claustro …simples limpeza (de que género?) e/ou fixação (!) …de quê ?…ainda restará algo 20 anos depois desta foto… ao sol e à poeira do terreiro do castelo …muito menos por certo… À atenção dos “vizinhos” …

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